Apresentação na reunião lacanoamericana (lacanorio) em 20 de outubro de 2017
A lógica do inconsciente no despovoado do nó borromeu
Na rotação dos discursos não há um só discurso que escape ao semblante no jogo da fala, a partir do momento em que é dada a partida . A questão que se coloca é de como o discurso analítico opera na fala. O discurso analítico é o simbólico, o imaginário e o real, o que não quer dizer que os outros discursos se invalidem e que neles esses registros significantes não estejam presentes. No discurso do mestre as falas operam para que “as coisas andem no passo de todo mundo” (Lacan, J, A terceira, 1975). No discurso analítico é o Real que não anda, é o real que não cessa de se repetir para se opor à marcha, ao movimento: esta é sua qualidade. O discurso analítico baseia-se nisso, os outros discursos evitam. O real não coincide com a realidade, nem pode ser atingido pela representação, não é universal. Não há metonímia/desejo para sustentar a relação entre os “elementos” do conjunto que são “inexistentes”.
R é uma hiância que se escreve em S, em alíngua, por meio de uma negação, não se dizer, não se escrever, não admite o discernimento, não há todos, não há relações nem classes. O Um de R é igualmente diferente e semelhante, persistente e efêmero, um e múltiplo, singular e anônimo: são os sintomas do Um real – o objeto a ou o sujeito – enquanto inscrito na cadeia significante ou nas representações. Em I, para ser capturado pela trama do possível, R aparecerá como o impossível. R está fora do espaço e do tempo (que são instaurados por I). As rodinhas (representação) são indestrutíveis. Nunca cessam de existir, nunca cessam de se escrever, não cessam de se representar.
Jacques Lacan chama de sintoma o que vem do real, como “um peixinho cujo bico voraz só se fecha ao colocar sentido entre os dentes” (Lacan, J, A terceira, 1975). Outra questão que Lacan se coloca no campo do discurso analítico: como fazer para que o real do sintoma “morra”, seja desfeito ou aniquilado?
Digressões epistêmicas
A dialética hegeliana se reporta às raízes lógicas, ao déficit intrínseco da lógica de predicação ou atribuição, ou seja ao universal que se fundamenta na negação, sendo que o particular somente tem existência, se apresenta como contingente.
Toda a dialética hegeliana busca preencher esta falha do particular, no que este é contingente ao adotar uma operação universal pela via da escansão tese, antítese, síntese.
Em Os limites de Hegel (Menos que Nada, Zizek, S, pg.307) Zizek levanta a questão: “poderia Hegel pensar o conceito que , segundo Lacan, condensa todos os paradoxos do campo freudiano, o conceito de não-Todo?” Zizek por sua vez enuncia uma lista do que Hegel “não pode pensar” que são conceitos elaborados em sua maioria pela psicanálise e pelo marxismo: repetição, inconsciente, sobredeterminação, objeto a, matema/letra (ciência e matemática), alíngua, antagonismo (paralaxe), luta de classes, diferença sexual.
Hegel também pensa o inconsciente mas como o inconsciente formal. O inconsciente freudiano é o inconsciente de elos e associações contingentes particulares. Hegel pensa uma espécie de objeto a que é apenas a singularidade contingente à qual se prende a totalidade racional. Por mais que Hegel nos surpreenda com evocações sobre a jouissance enquanto Real, no espaço conceitual de Hegel não há lugar para a lacuna que separa a verdade do Real.
Digressões sobre a angústia
Kierkegaard como contemporâneo ao desenvolvimento do sistema de Hegel, propõe que a angústia é signo, é testemunha de uma brecha, uma falha essencial na estrutura do sistema, o que veio a dar sustentação à proposição freudiana referente à falha essencial na estrutura do sujeito.
Já em a proposição freudiana, tendo como referência uma falha essencial na estrutura do sujeito, a angústia é elaborada em sua relação ao desejo. Vale nos remeter à concepção de estrutura e de sua falha essencial para desenvolver a emergência da angústia frente à queda do objeto na relação entre sujeito e objeto. Ao sujeito cabe desvelar, além da angústia, a função deste objeto perdido para vir a operá-lo como instrumento. É a falha da estrutura, esta mesma, que não nos permite tratar do desejo como um elemento que possa consistir, ter consistência no campo da lógica. (Lacan, J, Des Noms-du-Père, 1964/2005).
A angústia é um termo de referência crucial para a análise. A angústia é aquilo que jamais engana (Seminário XI), a angústia é um excesso de Real. A simbolização é bloqueada pela angústia porque toda simbolização supõe uma falta e, se há angústia, é porque esta falta está preenchida. O símbolo ocupa o lugar da falta sem o preencher, ele indica o que falta. Mas a angústia, “falta da falta”, corrói, apaga a própria falta como se o real contaminasse tudo. Por isto a angústia não engana, ela está ligada ao real em seu excesso, real que paralisa a função simbólica na ordem da falta. A angústia não é o real e o ato analítico não é desfazer a angústia como tal, a aposta do ato analítico é de que seja efetivo.
Em a Terceira
Lacan retoma a primeira (Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise), a que retorna para que não cesse de se escrever: “ disse nela o que precisava dizer. A interpretação, emiti, não é interpretação de sentido, mas jogo com o equívoco. Eis por que dei destaque ao significante na língua. Eu o designei de instância da letra”.
Diz Lacan em a Terceira que o corpo é o abismo, é desnodado do real, o corpo goza de objetos cujo primeiro, que Lacan escreve com “a”, é o objeto do qual não se tem ideia. É somente pela psicanálise que esse objeto constitui o cerne elaborável do gozo que somente se sustenta na existência do nó, nas três consistências de toros, de rodinhas de barbantes que os constituem.
O nó borromeu
O psicanalista pode abordar o real pelo grafo do desejo na dialética entre a demanda e o desejo, por uma série de letras rsi como nós. Diz Lacan em a Terceira que para que haja nó borromeu não é necessário que as três consistências fundamentais sejam todas tóricas. “Do imaginário, do simbólico e do real, pode haver um dos três, o real seguramente que se caracteriza justamente pelo que eu disse: por não fazer todo, isto é, por não se fechar”.
A decifração se resume ao que faz a cifra, ao que faz com que o sintoma seja algo que antes de tudo não cessa de se escrever do real. Ao operar o sintoma no intervalo entre S2 e S1, em psicanálise, chega-se ao ponto em que a linguagem possa fazer equívoco.
Do grande Outro, diz Lacan em “De um Outro ao outro” (Seminário XVI) que o sujeito do inconsciente está incluído no campo do Outro, mas que o ponto em que ele se expressa como sujeito é externo, entre aspas, ao Outro. Daí a importância do psicanalista sustentar o discurso analítico.
Diz Patrick Valas em “Da metáfora dos symptômes à estrutura do sinthome” que é a topologia, acrescento no manejo transferencial, que permite fazer “fixão além do real”. Trata-se de identificar o sujeito do desejo no não-todo de sua enunciação. Trata-se de identificar como este sujeito asférico se projeta nos pontos-traços (no tracejamento da banda de Moebius) nos pontos de torção, onde ele se esferiza, como imagem, no todo da demanda, como sujeito do enunciado reenviado à significação. Isto para dizer que todo o interesse da topologia consiste em permitir fazer a distinção entre a forma e a estrutura.
Pode-se desenhar um destes pontos-traços no achatamento mais simples da banda de Moebius. Onde ele não é o traço oblíquo com que Lacan barra o sujeito (sujeito barrado) ou o Autre (Outro barrado), nos matemas que ele propõe.
Este traço lembra o traço da caligrafia em que Lacan diz que nenhuma mão ocidental pode reproduzir: traço obtido de um único gesto. Sua característica, além da beleza de sua curva, é tal que que não se sabe onde começa nem onde acaba. É disto que Lacan quer falar ao inventar uma outra escrita, que não dependeria da precipitação do significante e cuja leitura seria polytonal como nas partituras de Stravinsky. Dito de outra forma, é uma escrita que deixa ao sujeito a liberdade de sua enunciação, que antes necessitava da segurança da palavra, mas que ao mesmo tempo não espera ser fonetizada. Não se pode fazer o sujeito dizer qualquer coisa: sua estrutura é estável.
Patrick Valas se reporta à topologia pela prática clínica no nível do sonho. No sonho há uma imaginarização do simbólico (Is); o imaginário se sobrepõe ao simbólico, pois sua interpretação é a simbolização da imagem (Si): o simbólico então se sobrepõe ao real em jogo no sonho, este retoma a questão da natureza do desejo, que Freud disse ser indestrutível. Durante o sonho este desejo é o realizador. Depois da interpretação, o desejo é a realização. Cerne-se assim um aspecto do nó do real, do imaginário e do simbólico. Nesse caso o estatuto do real mudou: o sonho é topólogo e não geômetra.
No seminário “…ou pior” (Seminário XIX) Lacan, segundo Patrick Valas, introduziu o uso do nó borromeu a partir desta frase em que ele identifica cada um dos verbos a uma das rodinhas de barbante, tentando dizer que o sentido de cada um esclarece um e outros. Eu te demando recusar (peço-te que me recuses) o que (eu) te ofereço, porque não é isto. Fazendo um corte após cada verbo encontraremos os diferentes sentidos que ganha o sinthome.
Considerações finais
O sintoma é irrupção dessa a-nomalia em que consiste o gozo fálico, na medida em que aí se mostra, em que se revela essa falta fundamental que Patrick Valas qualifica de não-relação sexual. É sobre o significante e pela equivocação que há intervenção analítica em que alguma coisa, no caso o gozo fálico, pode recuar do campo do sintoma. É no simbólico, em que é alíngua que o suporta, que o saber inscrito d’alíngua, que constitui propriamente o inconsciente, se elabora, então destituindo o sintoma no jogo da fala. O corte da torção e do reviramento se faz com propriedade sobre o gozo fálico. (Valas, P)
À psicanálise cabe evitar que esse saber não sabido não venha a ser reduzido nem pela ciência nem pelos epígonos de Freud e Lacan. Este saber, a saber, o Urverdrängt de Freud, o que do inconsciente jamais será interpretado: “L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre”.
Ivanisa Teitelroit Martins, psicanalista
Pós-graduada em Teoria Psicanalítica pela UnB, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, membro titular da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, mestre em planejamento e políticas sociais pela London School of Economics and Political Science, gestora do Ministério do Planejamento (aposentada), título de comendadora na categoria de profissional do ano por mérito social em 2017, publicado em 4 de agosto no D.O. do governo do Estado de São Paulo
nisatmartins@gmail.com

Bibliografia
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Lacan, J – a angústia, Seminário X (1962-1963) 2004/2005 – Do a aos nomes-do-pai, pgs. 359 a 366. Jorge Zahar Ed. 2008 – Rio de Janeiro
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