A escrita do inconsciente


O acesso ao inconsciente, o retorno furtivo do recalcado no momento do lapsus permite uma abertura mesmo que fugidia à existência do que se supõe ser o inconsciente.


Há um modelo pressuposto do discurso do Outro, de um Outro que está já está lá em toda abertura do inconsciente por mais fugidia que esta seja. É o discurso do Outro que se trata de realizar, o do inconsciente, um discurso que não seja semblant em que o discurso analítico seja möebiano. O inconsciente não está do lado do fechamento e da resistência, pelo contrário, está do lado de fora. É este que pela presença do analista, apela à reabertura de uma fresta. Se a função da transferência é o momento de fechamento é preciso que a tratemos como um nó, um nó que nos incita à escuta e à escrita topológica.
Desde o momento em que há uma cadeia significante, se há dois significantes, há um intervalo e o sujeito é esse intervalo. Se a negação do grande Outro supõe a negação do sujeito, é preciso que se diga que é em direção ao “eu não penso” que uma situação analítica se desdobra, ao se fazer uma interrogação sobre o não ser. É a passagem ao ato analítico que nos permite passar ao “ou eu não penso ou eu não sou”. O não-todo atesta a existência de um sujeito a dizer não à função fálica. Os ditos só podem incompletar-se, irrefutar-se, inconsistir-se, indemonstrar-se e indecidir-se a partir da ex-sistência das vias do seu dizer, dizer do Real em que o inconsciente é sintoma do Real. Se o sujeito fica à mercê do seu dito, este se repete como banda de Möbius, instante em que há a dissipação do sujeito da consciência. É no ponto-nó em que há uma volta em que se constitui um furo que, através do deslocamento do pequeno objeto a, causa um desdobramento do espaço para que o sujeito do não-saber desde Freud trabalhe no espaço topológico do inconsciente. A experiência da psicanálise se faz sobre o rochedo da castração, é uma experiência sombria. É no furo que o significante faz jogo, um jogo possível do Real. Todos as equivocações são permitidas e é aí que o psicanalista joga para que a interpretação desarme o sintoma.
Quando se comete “une-bévue” (Lacan translitera unbewusst em Freud por une-bévue), um equívoco, um lapsus, se descobre a outra face da mesma coisa, se descobre o bilátero de um significante. Durante um pequeno instante sai-se da bévue (ilusão) habitual e se comete um lapsus. A bévue do lapsus permite um breve acesso à outra face da banda de Möbius que tem um direito e um avesso. O acesso ao inconsciente, o retorno furtivo do recalcado no momento do lapsus permite uma abertura mesmo que fugidia à existência do que se supõe ser o inconsciente. A banda de Möbius permite apresentar o modo de relação do consciente ao inconsciente, em uma dupla inscrição. O ato de interpretação permite fazer corte mediano que venha a ter efeitos sobre a cadeia significante.
Lacan como um topólogo intuitivo fez topologia desde seu primeiro seminário. Já Freud fez topografia e em sua obra fez referência, pelo menos uma vez, à topologia na teoria do recalque. Em O saber do psicanalista, a topologia a que Freud já se referia na teoria do recalque, ganha nova dimensão na estrutura borromeana e na topologia do toro.
A estrutura borromeana produz nós tóricos, como o nó de trevo, ainda não borromeanos. Lacan em seminários distintos trabalha topologias diferenciadas. É pela banda de Möbius que se apresenta enquanto dizer que se escuta um constante movimento da demanda ao Outro em que há transformações das superfícies topológicas: toro – garrafa de klein – nó de trevo – nó borromeano. Se o significante é estruturado sobre a banda de Möbius e a demanda é recortada pelo oito interior, o desejo corre pela alma do toro. Há aqueles que leem o inconsciente pela geometria newtoniana e há aqueles que o leem pela geometria do inconsciente. O espaço se molda ao redor do toro. Nas superfícies topológicas o espaço é relativo. A geometria adequada é aquela em que se procura utilizar uma cadeia dextrógira (relação ao Outro) para a transformar em uma cadeia levógira (cadeias de identificação e escolha das cadeias significantes). No seminário 19, na seção 6, Lacan fala do toro como função e campo da palavra. No seminário 20 os nós ainda são rodinhas de barbante. É no seminário 21 que Lacan se depara com o quadro imagético da transformação borromeana, quando fala de anéis, círculos, cordas tóricas.
É a topologia, que privilegia a monstração mais do que a demonstração. Trata-se da topologia real como não sentido (non-sens), sentido branco (sens blanc). É o real assemântico que mente sobre aquilo que há para significar e faz a subjetividade entrar no Real, em “L’étourdit”, em 1976. Já o significante é assemântico ao fazer limitação ao simbólico. Trata-se de uma resposta que corta a semântica ao fazer furo significante no Real. O corte não destaca uma unidade semântica, pelo contrário, separa o Um do significante como não sendo atribuído a um sujeito. Trata-se de abrir espaço para o impredicável, uma outra forma de impossível, o impossível de predicar de que se trata o Real na medida em que é furado. Se o real do inconsciente linguagem se demonstra, aquele sintomático do inconsciente real não se demonstra: este se manifesta por seus rastros mnêmicos. Furar é enodar. Ao furar um toro, cria-se um nó. A perfuração do toro, a perfuração do falar pelo significante é um revelador do borromeano.
O Real e o Sintoma ficam no centro da cadeia, o Imaginário e o Simbólico ficam na extremidade. O sintoma tem dois lados, escuta-se um lado e o outro, escuta-se o que está mais próximo do inconsciente. O sintoma é metáfora. Há que haver uma interpretação que opere sobre o próprio nó de modo que a metáfora se constitua fora do sintoma para desse modo haver uma nova escrita do Real. Encontrar o Real suscita e ressuscita.
Para dar conta daquilo que o dizer, um dizer que é mais do que falar, pois só o dizer decide na análise, é preciso fazer mais do que furar o toro. É preciso que haja um corte fechado. É mais comum produzir nós de trevo. O nó borromeano tem propriedades distintas. Em final de análise há o reviramento do toro, esvaziamento do gozo e se escuta o avesso do pequeno objeto a.
Para dar conta da supressão do sentido Lacan, graças a Vappereau, em 1979, encontra o nó borromeano generalizado obtido ao se colocar em continuidade e estender duas das cordas do nó de quatro do sintoma. Esse novo nó de três difere do clássico nó RSI na medida em que ele se desfaz sem corte de tesoura ou lapso: basta lê-lo para desfazê-lo. Ler é desatar o nó. A partir de então há supressão do sentido e uma nova escrita do Real.


Ivanisa Teitelroit Martins
15 de novembro de 2025

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