Tempo e espaço topológico em psicanálise

A repetição engendra o sujeito como efeito de corte ou como efeito do significante que está ligada à queda do objeto pequeno “a”. Se um ato se apresenta como corte, é na medida em que a incidência deste corte sobre a superfície topológica do sujeito modifica sua estrutura, ou pelo contrário, a deixa idêntica. Esse é o momento em que há um corte “cirúrgico” sobre a estrutura, que depende da experiência de quem exerce a função de analista. É nesse ponto em que há a ligação estrutural entre o ato e o registro da Verleugnung. No percurso de uma análise atravessa-se um labirinto de efeitos, em que o sujeito não se reconhece como sujeito, por ter sido transformado por seu próprio ato.

Sessão: “O que isso representa? Onde está o meu desejo aí no caso? A partir disso cada um faz uma interpretação. …parece que ela está lambendo ela mesma. E a partir daí o que dizer? Parecia às vezes que era eu que estava sentada aí. Tinha um desejo aí? Tinha vários: tinha o desejo de estar dirigindo a cena, um desejo de fazer do jeito que eu quiser, sem me submeter a ninguém, sem estar sob o olhar de ninguém. Tem uma experimentação ali, quase única.

É outro trabalho que não é o estudado nem o observado, algo que ficou guardado, que talvez o inconsciente traga, algo que ficou de fora. Não é algo que acontece toda hora, dificilmente, mas… é … está suspenso… acho que eu consigo perder o tempo para não perder o tempo, tem um desejo constante que não costuma parar… são palavras que a gente não vai mais dizer”.

Há ditos e ouvidos. Esta é a evidência. O dizer do inconsciente na medida em que não se reduz a tal ou qual representação, pouco importa a representação que o mascare, que o recalque ou não. O dizer definido por sua falta pode parecer esvaziado, mas não se deve tomar o desejo pela letra e o mostrar como evidência. A psicanálise coloca em evidência cortes de sentido e de não sentido. Já de um dito espirituoso retém-se provisoriamente um efeito de clareza e não de sideração. O desejo seria nesse sentido sair dessa sideração, dessa influência nefasta do Real, de Das Ding. Cortes em análise não produzem um outro sentido, mas um ab-sens, uma ausência. Cortes desinflam o toro para fazer uma banda de Möbius, desinflam o dito para fazer um jogo de desmontagem. Desse modo a evidência se esvazia se remete a um nada. E não é nada. Isso passa. E o que resta? É o desejo? E o discurso? … o discurso… esse é o discurso analítico. E a escuta? … a escuta… é a escuta clínica no espaço topológico.

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